Capítulo 31

O Sumiço de um Açougueiro

Naquela noite, sob o manto da escuridão, um grupo de cavaleiros vestidos totalmente de preto saiu de Profiterólia, liderados pelo major Barata. Escondido embaixo de um saco de estopa grande, em uma carroça no meio deles, estava o gigantesco pé de madeira, com os entalhes das escamas e das garras longas e afiadas.

Por fim, eles chegaram aos arredores de Baronópolis. Agora os cavaleiros — integrantes da Brigada de Defesa Contra o Ickabog que Cuspêncio selecionara para o trabalho — desmontaram e forraram os cascos dos animais com estopa para abafar o barulho e o formato das pegadas. Depois retiraram o pé gigante da carroça, voltaram a montar e o levaram entre eles à casa onde Rolício Lombo, o açougueiro, morava com a esposa, que, por sorte, ficava a uma curta distância do bairro em que estavam.

Agora vários soldados amarraram os cavalos, dirigiram-se furtivamente à porta dos fundos de Rolício e forçaram a entrada, enquanto os demais pressionavam o pé gigante na lama em volta do portão dos fundos.

Cinco minutos depois de chegarem, os soldados retiraram de casa Rolício e sua esposa, que não tinham filhos, amarraram e amordaçaram os dois e os jogaram na carroça. A essa altura, eu poderia muito bem lhe dizer que Rolício e a esposa estavam prestes a ser mortos, os corpos enterrados na mata, exatamente como o soldado Altivo deveria livrar-se de Daisy. Cuspêncio só mantinha vivas as pessoas que lhe eram úteis: o sr. De Pombal podia precisar consertar o pé do Ickabog caso fosse danificado, e algum dia o capitão Bueno e seus amigos talvez tivessem de ser arrastados para fora de novo, para repetir as mentiras sobre o Ickabog. Mas Cuspêncio não conseguia imaginar um dia precisar de um traiçoeiro fabricante de linguiças, por isso ordenou seu assassinato. Quanto à pobre sra. Lombo, Cuspêncio nem a levou em consideração, mas quero que você saiba que ela era uma pessoa muito boa, que cuidava dos filhos dos amigos e cantava no coral local.

Depois que os Lombo foram levados, os demais soldados entraram na casa e quebraram a mobília como se uma criatura gigantesca a tivesse destroçado, enquanto os outros homens derrubavam a cerca dos fundos e pressionavam o pé gigante na terra macia em volta do galinheiro dos Lombo, para dar a impressão de que o monstro que zanzou por ali tinha atacado as aves. Um dos soldados até tirou as meias e as botas e fez pegadas descalço na terra fofa, como se Rolício tivesse corrido para fora para proteger as galinhas. Por fim, o mesmo homem decepou a cabeça de uma das aves e garantiu que muito sangue e muitas penas fossem espalhados em volta, depois quebrou a parede lateral do galinheiro para permitir a fuga das galinhas restantes.

Após pressionar muitas outras vezes o pé gigantesco na lama do lado de fora da casa de Rolício, para fazer parecer que o monstro teve de correr para terreno sólido, os soldados levaram a criação do sr. De Pombal de volta à carroça, pondo-a ao lado do açougueiro e sua esposa, que logo seriam assassinados, voltaram a montar nos cavalos e desapareceram na noite.

 

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