Capítulo 15

O Rei Retorna

Quando o rei partiu de Profetirólia na manhã seguinte, os boatos de que o Ickabog havia matado um homem não só tinham atravessado a ponte para Baronópolis, como tinham até chegado de mansinho na capital, cortesia de um grupo de vendedores de queijo que tinha partido em viagem antes do amanhecer.

Acontece que Profiterólia não era só a cidade mais distante do pântano ao norte, ela também sempre se considerou muito mais informada e instruída do que as outras cidades da Cornucópia e então, quando a onda de pânico chegou à capital, ela foi recebida por uma onda de descrença.

As tabernas e os mercados da cidade repicavam de discussões animadas. Os céticos riam da ideia ridícula de o Ickabog existir, enquanto outros diziam que as pessoas que nunca foram à Terra dos Brejos não deviam se fingir de especialistas.

Os boatos do Ickabog adquiriram muita vivacidade ao viajarem para o sul. Algumas pessoas diziam que o Ickabog tinha matado três homens, outras que ele apenas arrancara o nariz de alguém.

Na Cidade-Dentro-da-Cidade, porém, havia uma pitadinha de ansiedade. As esposas, filhos e amigos da Guarda Real ficaram preocupados com os soldados, mas tranquilizavam-se, pensando que, se algum dos homens tivesse sido morto, as famílias teriam sido informadas por mensageiro. Foi este o conforto que a sra. Brilhante deu a Bert quando ele a procurou na cozinha do palácio, depois de ter ficado assustado com os boatos que circulavam entre os colegas de escola.

— Se alguma coisa tivesse acontecido com o papai, o rei teria nos contado — disse ela a Bert. — Pronto, agora vou te dar um presentinho.

A sra. Brilhante tinha preparado Esperanças-do-Paraíso para a volta do rei, e deu a Bert uma que não estava muito simétrica. Ele suspirou, já que só ganhava Esperanças-do-Paraíso no seu aniversário, e mordeu o bolinho. De imediato seus olhos se encheram de lágrimas de felicidade, enquanto o paraíso subia ao céu da boca e derretia ao descer. Ele pensou, animado, no pai chegando em casa com seu uniforme elegante, e como ele, Bert, seria o centro das atenções na escola amanhã, porque iria saber exatamente o que tinha acontecido com os homens do rei na longínqua Terra dos Brejos.

O crepúsculo caía em Profiterólia quando, enfim, o grupo do rei foi visto. Desta vez, Cuspêncio não enviara um mensageiro para dizer ao povo que ficasse em casa. Ele queria que o rei sentisse toda a força do pânico e do medo de Profiterólia, quando o povo visse Sua Majestade voltando ao palácio com o corpo de um membro da Guarda Real.

O povo de Profiterólia viu os rostos abatidos e infelizes dos homens que voltavam e observou em silêncio a aproximação do grupo. Depois localizaram o corpo enrolado e pendurado no cavalo cinza chumbo e suspiraram e cochicharam. Pelas estreitas ruas calçadas com pedras de Profiterólia, o grupo do rei andou, homens tiraram os chapéus e mulheres fizeram reverências, e eles nem sabiam se prestavam seus respeitos ao rei ou ao morto.

Daisy De Pombal foi uma das primeiras a perceber quem faltava. Espiando entre as pernas de adultos, ela reconheceu o cavalo cinza chumbo do major Brilhante. Imediatamente esquecendo que Bert e ela não estavam se falando desde sua briga da semana anterior, Daisy soltou da mão do pai e começou a correr, abrindo caminho entre a multidão, suas tranças castanhas voando. Precisava alcançar Bert antes que ele visse o corpo no cavalo. Precisava avisar o amigo.  Mas as pessoas estavam tão próximas umas das outras que, por mais rápido que corresse, Daisy não conseguia acompanhar o ritmo dos cavalos.

Bert e a sra. Brilhante, que estavam do lado de fora de seu chalé, na sombra dos muros do palácio, perceberam que havia algum problema, devido aos suspiros da multidão. Apesar de ficar angustiada de vez em quando, a sra. Brilhante ainda tinha certeza de que estava prestes a ver seu belo marido, pois o rei teria mandado avisar caso ele tivesse sido ferido.

E então, quando a procissão virou a esquina, os olhos da sra. Brilhante foram de um rosto a outro, na expectativa de ver o major. E quando ela percebeu que não sobrava mais rosto nenhum, a cor de seu próprio rosto foi sumindo lentamente. E então seu olhar caiu sobre o corpo amarrado no cavalo cinza chumbo do major Brilhante e, ainda segurando a mão de Bert, ela desmaiou num átimo.

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