Capítulo 42

Atrás da Cortina

As cozinhas estavam vazias e às escuras quando a sra. Brilhante entrou sozinha a partir do pátio. Andando pé ante pé, ela espiava os cantos antes de prosseguir, porque sabia que Aftílio, o lacaio, gostava de se esconder nas sombras. Lenta e cautelosamente, a sra. Brilhante dirigiu-se aos aposentos particulares do rei, segurando o pezinho de madeira com tanta força que as garras afiadas se enterravam na palma da sua mão.

Por fim, ela chegou ao corredor de tapetes vermelhos que levava aos aposentos de Fred. Agora ouvia risos que vinham de trás das portas. A sra. Brilhante deduziu, corretamente, que Fred não tinha sido informado do ataque do Ickabog nos arredores de Profiterólia, pois tinha a certeza de que ele não estaria rindo caso soubesse. Porém, alguém claramente estava com o rei, e ela queria ver Fred a sós. Enquanto estava parada ali, perguntando-se o que seria melhor fazer, a porta se abriu.

Com uma arfada, a sra. Brilhante meteu-se atrás de uma longa cortina de veludo e se esforçou para que ela não balançasse. Cuspêncio e Palermo riam e brincavam com o rei enquanto davam boa-noite.

— Excelente piada, Majestade, ora essa, acho que rasguei minha pantalona! — Palermo gargalhava.

— Rebatizaremos Vossa Majestade de rei Fred, o Folgazão, Alteza! — disse Cuspêncio, rindo.

A sra. Brilhante prendeu a respiração e tentou encolher a barriga. Ouviu a porta do quarto de Fred se fechar. Os dois lordes pararam de rir prontamente.

— Maldito idiota — disse Palermo em voz baixa.

— Conheci bolas de queijo de Curdesburgo mais inteligentes que ele — resmungou Cuspêncio.

— Não pode se revezar comigo para entretê-lo amanhã? — grunhiu Palermo.

— Ficarei ocupado com os coletores de impostos até as três — disse Cuspêncio. — Mas se…

Os dois lordes se calaram. Seus passos também cessaram. A sra. Brilhante ainda prendia a respiração, de olhos fechados, rezando para que eles não notassem o volume na cortina.

— Bom, boa noite, Cuspêncio — disse a voz de Palermo.

— Sim, durma bem, Palermo — disse Cuspêncio.

Com muito cuidado, e o coração disparado, a sra. Brilhante soltou a respiração. Estava tudo bem. Os dois lordes iam dormir… e ela não conseguia mais ouvir passos…

E então, de maneira tão brusca que ela não teve tempo de puxar o ar para os pulmões, a cortina foi puxada. Antes que ela conseguisse gritar, a imensa mão de Palermo tapava sua boca e Cuspêncio tinha prendido seus pulsos. Os dois lordes arrastaram a sra. Brilhante de seu esconderijo e a fizeram descer a escada mais próxima; embora lutasse e tentasse gritar, ela não conseguiu emitir nenhum som através dos dedos grossos de Palermo, nem conseguiu se libertar. Por fim, eles a empurraram para o mesmo Salão Azul onde antes ela havia beijado a mão do marido morto.

— Não grite — Cuspêncio a alertou, puxando um punhal que costumava portar mesmo dentro do palácio — ou o rei precisará de uma nova confeiteira-chefe.

Ele gesticulou para Palermo tirar a mão da boca da sra. Brilhante. A primeira coisa que ela fez foi puxar uma golfada de ar, porque sentia que desfalecia.

— Você criou um belo calombo naquela cortina, cozinheira — Cuspêncio escarneceu dela. — Exatamente o que fazia escondida ali, tão perto do rei, depois de as cozinhas estarem fechadas?

A sra. Brilhante podia ter inventado alguma mentira, naturalmente. Podia ter fingido que queria perguntar ao rei Fred que bolos ele queria que ela fizesse no dia seguinte, mas ela sabia que os dois lordes não acreditariam nela. Assim, em vez disso ela estendeu a mão que segurava o pé do Ickabog e abriu os dedos.

— Eu sei — disse ela em voz baixa — o que vocês estão fazendo.

Os dois lordes aproximaram-se, olharam na palma de sua mão e viram a réplica perfeita e minúscula do enorme pé que a Infantaria Sombria usava. Cuspêncio e Palermo se entreolharam, depois olharam para a sra. Brilhante, e só no que a confeiteira-chefe pôde pensar, quando viu a expressão deles, foi fuja, Bert… fuja!

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