Capítulo 6

A Briga no Pátio

Havia um pátio atrás do palácio onde pavões andavam, fontes jorravam e estátuas de antigos reis e rainhas vigiavam. Desde que não puxassem a cauda dos pavões, não pulassem nas fontes nem trepassem nas estátuas, os filhos dos servos do palácio podiam brincar no pátio quando saíam da escola. Às vezes Lady Eslanda, que gostava de crianças, vinha fazer guirlandas de Daisy com eles, mas o mais animado era quando o rei Fred aparecia na sacada e acenava, o que fazia todas as crianças aplaudirem, empolgadas, fazendo mesuras e reverências, como os pais ensinaram.

A única ocasião em que as crianças ficavam em silêncio, paravam de pular amarelinha e de fingir combater o Ickabog era quando os lordes Cuspêncio e Palermo passavam pelo pátio. Eles achavam que os pirralhos faziam barulho demais no final da tarde, exatamente a hora em que Cuspêncio e Palermo gostavam de tirar uma soneca entre a caçada e o jantar.

Um dia, quando todos estavam brincando como de costume em meio às fontes e os pavões, a filha da nova costureira-chefe, que usava um lindo vestido de brocado cor-de-rosa, falou:

— Ah, estou torcendo para o rei acenar para nós hoje!

— Bom, eu não estou — disse Daisy, que não conseguiu se conter e não percebeu que tinha falado tão alto.

Todas as crianças suspiraram e se viraram para ela. Daisy sentiu calor e frio ao mesmo tempo quando viu todos encarando.

— Você não devia ter dito isso — cochichou Bert. Como estava bem ao lado de Daisy, as outras crianças o encaravam também.

— Nem ligo — disse Daisy, ficando vermelha. Agora que tinha começado, podia muito bem terminar. — Se ele não obrigasse minha mãe a trabalhar tanto, ela ainda estaria viva.

Daisy sentia que há muito tempo tinha vontade de dizer isso em voz alta.

Ouviu-se outro suspiro geral de todas as crianças que a cercavam, e uma das filhas da criada chegou a soltar um gritinho de pavor.

— Ele é o melhor rei que já tivemos na Cornucópia — disse Bert, que ouvira a mãe dizer isso muitas vezes.

— Não é, não — Daisy falou em voz alta. — Ele é egoísta, fútil e cruel!

— Daisy! — Bert cochichou, apavorado —, deixa de ser… deixa de ser boba!

Foi a palavra “boba” que surtiu efeito. “Boba”, quando a filha da nova costureira-chefe sorria com maldade e escondia seus cochichos com a mão ao falar com os amigos, enquanto apontava o dedo para o macacão de Daisy? “Boba”, quando o pai enxugava as lágrimas durante a noite, pensando que Daisy não estava vendo? “Boba”, quando sua mãe jazia debaixo daquela lápide fria que Daisy via pela janela do quarto de dormir, todas as noites?

Daisy recuou a mão e deu um tapa bem na cara de Bert.

Em seguida, o irmão Barata mais velho, cujo nome era Bertoldo e que agora ocupava o antigo quarto de Daisy, gritou: “Não deixa ela se safar dessa, Bola de Banha!”, e liderou os meninos nos gritos de “Briga! Briga! Briga!”

Apavorado, Bert deu um empurrão desanimado no ombro da amiga, e pareceu a Daisy que a única coisa a fazer era se atirar para cima de Bert, e tudo virou poeira e cotovelos até que de repente as duas crianças foram separadas pelo pai de Bert, o major Brilhante, que veio correndo do palácio para ver o que estava acontecendo.

— Que comportamento medonho — resmungou Lorde Cuspêncio, passando pelo major e pelas duas crianças que choravam e brigavam.

Mas, ao se afastar, um largo e malicioso sorriso se abriu na cara do Lorde Cuspêncio. Ele era um homem que sabia fazer bom uso de um problema e pensava seriamente ter encontrado um jeito definitivo de livrar o pátio daquelas crianças, ou de parte delas, pelo menos.

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